Passo a Passo Epilepsia Introdução à epilepsia: desmistificando a doença

O que é epilepsia? 1

A epilepsia caracteriza-se por uma predisposição do cérebro para desenvolver crises epilépticas, que são geradas por descargas elétricas anormais e excessivas em determinadas regiões, podendo se espalhar para outras áreas cerebrais. Entende-se que seu impacto não é determinado apenas pelos aspectos clínicos da doença, pela frequência e gravidade das crises, mas também por fatores psicológicos e sociais, bem como pela percepção das pessoas com epilepsia e de seus familiares sobre as consequências da doença em suas vidas.

O estigma do epiléptico1,2,3

O estigma na epilepsia iniciou-se já com a origem de seu nome, pois epilepsia é uma palavra de origem grega que significa ser invadido ou dominado. Com o passar do tempo, o estigma passou a ser relacionado com a perda do controle, que fica evidente durante as crises, e a sociedade começou a nutrir um certo receio de lidar com pessoas tendo convulsões.

Hoje o preconceito com relação ao epiléptico reduziu bastante, contudo, para algumas pessoas as crises ainda passam uma ideia negativa relacionada à perda da saúde, das relações familiares e sociais. Por outro lado, alguns portadores de epilepsia não conseguem deixar de lado o desconforto trazido pela doença. É muito comum se sentir como se carregasse uma marca, porque para ele, as crises são desagradáveis aos olhos dos outros, trazendo sentimentos como constrangimento e vergonha.

De maneira prática, existem três principais formas que ajudam a redução do estigma na epilepsia:

A conscientização da população em geral por meio de campanhas informativas, que minimizam o impacto social, especialmente relacionado ao preconceito.

O cuidado com o epiléptico e seus familiares envolvendo trabalho biopsicossocial com um atendimento integral, psicoterapia e grupos de apoio ou educativos.

Atualização de profissionais da área de saúde com Programas de Educação Continuada sobre o tratamento da epilepsia.

As causas da epilepsia1

Em muitos casos a epilepsia não tem uma causa definida. Contudo, ela pode ter origem em lesões sofridas na cabeça, atuais ou não, como traumas durante o parto, tumores, febres altas, infecções, doenças neurológicas como AVC, entre outras. Dessa forma, ela é mais frequente em crianças e idosos, porque nessas fases o cérebro é mais vulnerável a essas lesões.

Fatores genéticos1

Na epilepsia geralmente não há uma herança genética, ou seja, não dizemos que se trata de uma doença hereditária, embora haja maior predisposição para pessoas cujos familiares apresentem crises epilépticas. O que ocorre na maioria das vezes são doenças, como infecções cerebrais, problemas cardíacos, entre outras, que podem ter entre suas manifestações a epilepsia.

Epilepsia e crises epilépticas1

É importante ressaltar que há uma diferença entre epilepsia e crises epilépticas. A crise é o evento em si, que é caracterizado por sinais e sintomas que têm início, meio e fim, geralmente breve. Assim uma pessoa pode ter uma crise, sem necessariamente ser epiléptica. As crises têm um início e final bem claro e perceptível. Já a epilepsia se caracteriza por duas ou mais dessas crises, ou pela alta predisposição para um segundo episódio em decorrência de uma lesão cerebral.

Tipos de crise1

• Focais: há um comprometimento apenas de um lado do cérebro e não há perda da consciência. Pode ser caracterizada pelo olhar ausente, piscar constante de olhos, movimentos de engolir, entre outros, mas sem resposta a estímulos externos. Às vezes a pessoa nem percebe que está em crise a menos que outras pessoas digam. Podem ocorrer com plena consciência da pessoa, que apresentaria abalos musculares, por exemplo. Também pode acontecer de o indivíduo ter uma crise focal e esta crise evoluir, afetando também o outro lado do cérebro, se tornando generalizada.

• Generalizadas: nas crises generalizadas há um comprometimento de toda extensão dos dois hemisférios cerebrais, ou seja, do lado esquerdo e direito, e por isso há perda da consciência. Geralmente antes de ocorrer, as pessoas costumam sentir mal-estar, medo e náuseas.

Alguns exemplos de crises generalizadas:1

• Generalizadas tônicas: quando há apenas movimentos de extensão dos membros (como braços e pernas)

• Generalizadas clônicas: quando há apenas movimentos de flexão dos membros.

• Generalizadas tônico-clônicas: são aquelas que a maioria das pessoas já ouviu falar pelo menos uma vez na vida. Nela, a pessoa cai e tem movimentos tônicos, ou seja, de extensão dos membros; e clônicos, de flexão dos membros. Esses movimentos podem vir acompanhados de abalos musculares, salivação e incontinência urinária e fecal. A pessoa mantém os olhos abertos e pode haver o que os especialistas chamam de grito epiléptico, um ato involuntário antes da crise.

Referências bibliográficas:

1. Scheffer I. E.; Berkovic S.; Capovilla G.; et al. Classification of the epilepsies: Position paper of the Commission for Classification and Terminology. Epilepsia, 58(4):512–521, 2017.
2. Paula Teixeira Fernandes P.T e Li M. L. Percepção de estigma na epilepsia. J. epilepsy clin. neurophysiol. vol.12 no.4 Porto Alegre Dec. 2006.
3. Gallucci Neto J.; Marchetti R.L. Aspectos epidemiológicos e relevância dos transtornos mentais associados à epilepsia. Rev Bras Psiquiatr. 2005;27(4):323-8.
*Este conteúdo não reflete a opinião da Sandoz do Brasil – BR1810914356 – Outubro/2018

Dr. Rodrigo Rizek Schultz – CRM 80.201

Professor de Neurologia do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Santo Amaro, UNISA

Presidente da Associação Brasileira de Alzheimer, ABRAz Nacional

Coordenador do Ambulatório de Demência Grave do Setor de Neurologia do Comportamento da Universidade Federal de São Paulo, UNIFESP

13/11/2018