Superbactérias

27/03/2018

Conversamos com a Dra. Melissa Medeiros, Infectologista do Hospital São Camilo em Fortaleza, para entender o que é a resistência aos antibióticos e as chamadas “Superbactérias”? É hora de tirar suas dúvidas!


Você sabia?1-9


1. Dra. Melissa, o que é resistência aos antibióticos (ATBs)?1-3

A resistência aos antibióticos acontece quando microrganismos (bactérias, fungos, vírus e parasitas) não respondem mais às medicações antimicrobianas disponíveis, e isso ocorre pela modificação que estes sofrem ao entrar em contato com essas drogas. Como resultado, o tratamento do paciente se torna um desafio visto que as medicações para tratar uma infecção se tornam ineficazes. Como consequência, as doenças infecciosas comuns se prolongam, evoluem para complicações e até óbito. A Organização Mundial de Saúde considera hoje a resistência antimicrobiana como um dos principais riscos para não atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.1-3


2. E como surgem as “Superbactérias”?2,3,8

Quando as bactérias deixam de responder à maioria dos tratamentos para infecção com antimicrobianos e esses patógenos se tornam resistentes a mais de 3 classes de antibióticos eles são considerados multirresistentes e chamados popularmente de “Superbactérias”. As “Superbactérias” existem há milhões de anos. Foram isoladas amostras de bactérias na caverna de Lechuguilla, no Novo México, que estava isolada há 4 milhões de anos. Estas amostras evidenciaram resistência a 14 antibióticos, mostrando que as Superbactérias já existiam e não surgiram no mundo moderno como se costuma pensar.

Mas se lembrarmos que Fleming só descobriu o primeiro antibiótico no século XX, fica claro que estes ajudaram a selecionar as bactérias que vão aprendendo através de mecanismos próprios a sobreviver no mundo, usando os seres humanos muitas vezes como hospedeiros. 2,3,8 


3. Qual o impacto no ambiente e na comunidade sobre a resistência aos ATBs?4-6

Os antibióticos são principalmente usados para o tratamento de infecções humanas. Porém, o uso dessas medicações não está restrito apenas para essa finalidade. Essas substâncias são extensivamente utilizadas na agropecuária pelos veterinários e promoção do melhor crescimento destes. São também utilizados na agricultura e aquicultura tanto como prevenção quanto tratamento de contaminações.

Na América do Sul as bactérias são frequentemente responsáveis por uma alta mortalidade e perfil elevado de resistência aos antibióticos. Esses são alguns nomes próprios das chamadas “Superbactérias”: P. Aeruginosa, Acinetobacter spp. e K. Pneumoniae.4 O Brasil e outros países da América Latina em geral possuem altos níveis de resistência antimicrobiana. O programa MYSTIC (Meropenem Yearly Susceptibility Test Information Collection) evidenciou um aumento crescente da resistência de bactérias ao antibiótico Meropenem que é usado em infecções graves e em última linha de terapia. 5,6


4. Como podemos contribuir para prevenir as “Superbactérias”?8

Promover condições de higiene e saneamento para a população humana é essencial, visto que a água não tratada pode disseminar as bactérias e patógenos resistentes. Principalmente, o tratamento da água que sai dos hospitais e locais onde o uso de antibióticos é extenso. Além disso, a regulamentação e controle do uso de antibióticos pela comunidade é ponto chave na prevenção, pois o uso incorreto e indiscriminado dessas medicações é o responsável pela seleção das bactérias resistentes. Esse objetivo pode ser atingido suspendendo o uso de antibióticos quando estes não são necessários (como na criação de animais e agricultura), limitando seu uso.8


5. Como os médicos e profissionais de saúde podem controlar essa disseminação de “Superbactérias” pelo Brasil?9


O uso racional de antimicrobianos seria a melhor resposta. E do que se trata isso?

Quadro 01. Resumo de passos para o uso racional de antimicrobianos.9  


Conteúdo adaptado por: Dra. Melissa Soares Medeiros CRM CE 20131

Infectologista do Hospital São Camilo Fortaleza - Mestre e Doutora em Farmacologia  
Fellow research pela Universidade da Virgínia – EUA - Professora adjunta da Faculdade de Medicina da Unichristus. 

*Este conteúdo não reflete a opinião da Sandoz do Brasil. Março/2018 – BR1803793335 

Referências: 
1. https://g1.globo.com/bemestar/noticia/superbacterias-avancam-no-brasil-e-levam-autoridades-de-saude-a-correr-contra-o-tempo.ghtml 
2. Antimicrobial resistance. Fact sheet. http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs194/en/ WHO. Updated January 2018 
3. Peter Collignon, Prema-chandra Athukorala, Sanjaya Senanayake, Fahad Khan. Antimicrobial Resistance: The Major Contribution of Poor Governance and Corruption to This Growing Problem. PloS One March 18, 2015DOI: 10.1371. 
4. Silva E, Pedro MA, Sogayar ACB, Mohovic T et al. Brazilian Sepsis Epidemiological Study (BASES study). Critical Care 2004, 8: R251-R260. 
5. Flavia Rossi. The Challenges of Antimicrobial Resistance in Brazil. Clin Infect Dis. (2011) 52 (9): 1138-1143 
6. Paul R. Rhomberga, Ronald N. Jones. Summary trends for the Meropenem Yearly Susceptibility Test Information Collection Program: a 10-year experience in the United States (1999–2008). Diagnostic Microbiology and Infectious Disease 65 (2009) 414–426. 
7. Coutinho FH, Pinto LH, Vieira RP et al. Antibiotic Resistance in Aquatic Environments of Rio de Janeiro, Brazil. INTECH. 2013 https://www.arca.fiocruz.br/bitstream/icict/12305/2/livro44184.pdf 
8. Andersson, D. I, & Hughes, D. Antibiotic resistance and its cost: is it possible to re‐verse resistance? Nature Reviews Microbiology (2010)., 8(4), 260-271. 
9. World Health Organization. Worldwide country situation analysis: response to antimicrobial resistance. Genebra: WHO, 2015.